Quando os escaladores se juntam para fazer uma viagem dos sonhos para escalar, são poucos os que pensam no Líbano como um destino no Mediterrâneo. Ainda assim, o país tem um grande potencial, além da primeira rota 9a no Oriente Médio.
Encontrada por David Lama em 2015, Avaatara (9a/5.14d) está localizada em Baatara George, no Líbano, onde existe uma cachoeira que se encontra no meio das rochas de aproximadamente 255 metros. Existem também três pontes de pedras naturais, que dão outro tipo de aparência ao local.
Inspirado pelo filme ‘Subida de Lama’, o escalador francês Victor Guillermin, de 20 anos, viajou ao Líbano na primavera para tentar esta linha, que ainda não tinha sido repetida até agora. “A beleza da escalada, a dificuldade dela e a história criaram uma linha dos sonhos para mim”, disse ele.
O percurso íngreme de 35 metros situa-se no interior do desfiladeiro, próximo a uma cachoeira e acima de uma intimidadora dolina. Quando o vento sopra na direção errada, a escalada se torna mais difícil por ser encharcada. Só o acesso pode já ser um grande desafio. Por sorte, Jad El Khoury, que fez a primeira subida, acompanhou Victor nesta escalada.
Victor rapidamente entendeu os movimentos, ainda assim, uma crux o desafiava dia após dia, até que restasse pouco tempo. No dia 28 de abril de 2023, o último dia de Victor no local, ele conseguiu completar a subida em Avaatara.
Victor traz algumas reflexões sobre a escalada que ele fez no Líbano nesta pequena entrevista:
O que te inspirou a tentar Avaatara no Líbano? Este ano, queria muito focar nas rotas difíceis e externas, mas também queria visitar um lugar novo. Há alguns anos, assisti ao filme de David Lama sobre Avaatara e pensei em visitar o país. Conversei sobre a rota no Líbano com o meu pai e decidimos planejar a viagem ao Líbano. A beleza da escalada, a dificuldade dela e a história criaram uma linha dos sonhos para mim.
Nos conte mais sobre a escalada no Líbano. O Líbano é um lugar muito especial para ir escalar pelo pouco desenvolvimento internacional. Não é (ainda) um destino no mundo da escalada. Então, foi uma oportunidade bem legal de ser um dos primeiros a conhecer a comunidade local e descobrir o lugar. Além disso, as escaladas são de alta qualidade, os libaneses são tão gentis e o Líbano é um país tão bonito que este é um dos lugares que se deve ir para todos os escaladores e amantes da escalada no mundo.
“O Líbano pode não ser um lugar que esteja no radar de muitos escaladores, mas já chamou a atenção da mídia de alguma forma. O país tem algumas das melhores pedras do Mediterrâneo, com potencial para milhares de rotas”, diz Jad El Khoury, que é escalador local e desenvolvedor de rotas Foto: Lea El-Medawar
Quais outras formas você se preparou para o projeto? Fez algum treino específico? Para escalar esta rota, não fiz nenhum treino específico, só fiz treino de endurance porque a a rota era muito esburacada. Não tinha muitas informações da rota, então não consegui replicar crux ou setores. No fim, a rota não estava tão esburacada. Ela apenas pedia um pouco de endurance e, por sorte, isso eu tinha o suficiente.
Qual foi a sua primeira impressão quando chegou ao Baatara George e começou a tentar a rota? Honestamente, na primeira vez que eu vi aquele gargalo eu estava com medo, imagine escalar acima de um buraco de 100 metros, próximo da cachoeira, com uma abordagem alucinante. Por sorte, Jad me ensinou a fazer isso de forma segura e eu consegui fazer a rota
Honestamente, na primeira vez que eu vi aquele gargalo eu estava com medo, imagine escalar acima de um buraco de 100 metros, próximo da cachoeira, com uma abordagem alucinante.
Na minha primeira tentativa, tinha muito trabalho a fazer: Precisava trocar os velhos mosquetões, redescobrir e limpar cada agarra. Finalmente, no meu primeiro dia de tentativas dos movimentos, estava confiante que conseguiria fazer a subida.
Se você estava confiante na sua capacidade de fazer isso rapidamente, como foi o resto do processo? Meu progresso pela rota foi um pouco incomum. De primeira, me levou três dias para desvendar todos os movimentos e descobrir a melhor beta. No fim do terceiro dia, caí no meio da crux principal, movimento difícil com uma queda de joelhos. E nas próximas 20 tentativas, ao longo de seis dias, caí no mesmo movimento.
Descreva essa crux para nós. Esta crux foi mais desafiadora mentalmente do que fisicamente. Se torna difícil de manter a fé em si mesmo depois que as 19 tentativas não deram certo e foram todas iguais. Essas tentativas também me fizeram fisicamente mais fraco, porque eram poucos movimentos e eu não treinei entre os dias de colocar as agarras nos locais. Nunca pensei realmente em desistir, mas algumas vezes eu pensei em ir para outros lugares e tentar outras rotas ou descobrir outros penhascos, mas eu continuei tentando porque era a única forma de subir Avaatara.
O que fez a diferença? No penúltimo dia de escalada, depois de cair 25 vezes no mesmo movimento, fiquei bravo porque o que eu tinha feito era inútil. Depois, o meu pai me chamou em um canto e disse que eu tinha que tentar outro beta, porque o que eu vinha fazendo não tinha funcionado. Fui então encontrar outro beta, que eu não tive sucesso, mas antes de cair, o meu pai me sugeriu para tentar ganchos de calcanhar, que eu era muito bom. Imaginei novos betas e em 10 minutos encontrei uma série que era mais física e menos aleatória. Diretamente, me senti mais confiante na minha habilidade, mas eu só tinha um dia e meio a mais no país. No final do dia, fiz uma nova tentativa e passei a crux pela primeira vez, antes de cair na segunda. Entendi depois que a primeira crux ainda não estava terminada.
Além da escalada, você também trouxe 20 pares de sapatilhas da Tenaya para doar para a comunidade. Como surgiu essa ideia? Normalmente, quando a gente vai escalar, a gente só consome e não desenvolve nada. Durante a viagem ao Líbano, especialmente pela crise econômica, eu e o meu pai pensamos de ajudar um pouco. Muito gentilmente, a Tenaya apoiou a ideia e doou 20 pares de sapatilhas para a cidade de Tannourine (onde se localiza a rota), para ajudar as pessoas a descobrirem a escalada no lindo país deles!
Normalmente, quando a gente vai escalar, a gente só consome e não desenvolve nada. Durante a viagem ao Líbano, especialmente pela crise econômica, eu e o meu pai pensamos de ajudar um pouco.
Como foi finalmente fazer a rota? No último dia, estava muito pressionado, porque falhar significaria voltar ao Líbano meses depois para tentar a mesma rota. Infelizmente, o clima estava bem ruim e também choveu durante as minhas duas primeiras tentativas. Sempre escorregava na segunda crux, era difícil com um gancho de dedo. Na minha terceira tentativa, comecei a me sentir cansado, e caí de novo porque a pressão estava muito forte. Na minha quarta e última tentativa, com uma chuva fraca, consegui fazer Avaatara, depois de uma longa luta contra superfícies molhadas, dedos congelados e uma dor no meu antebraço. Foi provavelmente a maior luta que eu já tive!
Como você se preparou para a viagem? Antes de ir, tentei entrar em contato com Jad El Khoury, um escalador local e desenvolvedor de rotas e também autor e guia de viagem, pelo Instagram. Perguntei se Avaatara ainda era escalável e se a gente precisava de algo especial para escalar Baatara George (onde se localiza a rota). Graças a ele, descobrimos que era necessária uma licença para escalar e também tirar fotos com drones. Ele também nos recepcionou, tomou conta dos detalhes para o projeto e nos deixou escalar rotas incríveis no Líbano. Sem ele, nada disso seria possível!
Para concluir, tem algo mais a acrescentar? Só gostaria de dizer que o potencial de escalada no Líbano é incrível! Vimos dezenas de cavernas grandes e penhascos que estavam apenas pedindo para serem grampeados! Afortunadamente, Jad e a Rock Climbing Lebanon estão escalando o maior número possível! Se tiver a oportunidade, não hesite e vá ao Líbano para escalar! E graças a todos no Líbano, especialmente Jad El Khoury, Lea Medawar e David Lama, além dos meus pais e da Tenaya, claro!
Jad El Khoury e George Emil são co-fundadores da Rock Climbing Lebanon, uma organização para escaladas sustentáveis no país, que tem como objetivo colocar o Líbano no mapa da escalada. Eles também publicaram um livro sobre as escaladas no Líbano, que tem grandes dicas dos potenciais de escalada do país.
Jad também fez parte de Sit Start, uma iniciativa que tem como objetivo popularizar o boulder no Líbano e foi criada em agosto de 2022 para desenvolver campos de boulder no Líbano. Ao mesmo tempo, eles também criaram equipamentos para arrecadar fundos e assim popularizar e ajudar a desenvolver o boulder no país.
